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Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Perdi e ganhei

Já fui aquela que detinha o know-how aquela que achava que você não era bom (o suficiente) e que nada mais era tão natural como o jeito que fazia tudo, simplesmente. Tudo resumido em academia, era o lugar aconchegante fora de lá, não havia autonomia para sorrir mais adiante. Dizem que a sorte tem de suas vontades e tudo não te permite ter se, no amor, tem a vontade nos negócios não há de ter. Os outros eram só os outros... e só não foi Leoni que ensinou-me, em hora aquela mas a confiança de uma vida inteira sem o sofrimento de uma perda maior. Mas Deus quis tirar de mim a pretensão quis-me mostrar que sou tão humana e falha quanto o outro que sou o outro que estendia a mão, que julgava em silêncio mesmo afirmando: "Jamais, não!". Sou o reflexo do que não via ao espelho enfrentar minha feridas estão a mostra, as que antes não pareciam estar e há motivo pra tudo isso, há porque frágil, agora, parecer preciso corrigir defeitos pra que o outro eu ...

Telescópio

Involuntário medo não é a decisão  mais primorosa mas o tenho, não sou feita só de primor, veja bem... a sensação de não caber em mim faz-me sentir não pertencente a onde estou rezo a Deus a pedir ajuda, a suplicar Sua presença até no sono cair. incondicional Amor O tenho, como afinal deveria ser? diante de prova maior: o sofrimento, a morte, para que Seus filhos pudessem viver. nos meus dias, sim acho-me acolhida quando me encontro perdida ao olhar pro espaço ou ao menos meu arredor, se daqui a beleza, os olhos, cega, imagine de lá? wow! De algum astro a visão deve ser inimaginável, talvez eu pertença a outro lugar acima daquela estrela, à esquerda do satélite, acima das nuvens... acima da minha mente, além do que vejo, além do que penso, além do que um dia, como carne humana, fui (e serei) capaz de pintar.

Cria da infância:

A criança que desperta não sabe quanto pode brincar não espera a permissão, não rejeita lápis e papel, tinta e massa de modelar. "Tá tudo sujo, quebrado, que bagunça!" Será de imediado o que receberá, diante da sinceridade, do domínio da arte de "criançar", sem descansar, sem pestanejar; continuará pela sala, quarto e quintal cozinha e chão de lama mãos de lama castelos no quintal poças de piscina e o quarto: bagunça paredes: telas sofá e lençol: casinha porque a criança sente como um ímpeto a vontade de se mudar daquele lugar no qual nasceu e incomoda quem a concebeu quem se esqueceu do dia que montou castelo de areia com balde no quintal de cobertor fez escorrega de travesseiro espada. Incomoda, a criança, porque traz o que ficou das lembranças esquecidas atrás do dia cheio, da rotina, da dura vida de responsabilidade do dia feliz pelo doce que...

Menina dos olhos mutantes

Menina do sorriso de fita de cetim Menina dos olhos recessivos por hora Menina não sabe bem o que sentir Só conhece o desejo que vai e volta Letras e as músicas fazem-na sorrir Tom e a voz fazem-na chorar Sabedoria sabe faze-la feliz Menina sem pé de samba quer dançar Não, não sei bem quem ela é pois não decide ao menos o tom dos cabelos a colorir en-tão veja bem, ôh solidão que deseja o seu coração vá embora, que a saudade já passou Menina que dança feliz pela rua que cuida de quem não pode pedir que brinca com a infância que nasceu depois que sempre está pronta pra sorrir Menina  não poupa o que dizer por horas estás a brigar com aquele que diz tortas palavras com aquele que não quer lhe respeitar A inocência se faz em face dela acorda, dança e com ela dorme sua pureza transpira em  pele fazendo-se de suor, de sal,  perfume Menina que voa com os pés no chão está interessada no que não pode ver vive em mundo só seu, num balão vive ...

Desejo de expressão

 o inverso na forma de verso deixa no verso do papel o pensamento ao contrário

Linhas feito flash

Vejo as fotos e lembro que não as tenho (não as temos). Não nos vejo esbanjando sorrisos quadrados, envidraçados, obrigados por câmera presente, demonstrando felicidade, às vezes ausente, a espectadores anônimos, desconhecidos e sedentos.  Não vejo provas dos dias vividos feito marcas de luz no papel, ou digital efeito, da alegria do momento passado (não vejo mais o passado, agora).  Em verdade vejo, as linhas trazem-me: teu sorriso em traço, de espontânea alegria no instante não clicado por câmera ausente de fotógrafo inexistente depois de um cego beijo, depois de desperta manhã , tua voz nossa pele teu perfume  Sem fotos                  do sono acordado                  do banho tomado                  do cabelo penteado           Cada passo registrado aqui, na tua ...

Trocando as engrenagens, expondo as feridas

Há tempos tenho perdido partes da minha memória por momentos, os mais importantes - por sinal - é como se o parafuso de um relógio folgasse justamente à meia noite, quanto todos esperam as doze badaladas. Sinto-me caindo nos meus pesadelos, como se de tão assustadores eles estivessem se tornando reais, aquilo que um dia eu temi, a seda que separava o caminho do certo àquele do fracasso estivesse se rompendo e tudo se misturando e eu não conseguisse separar. Sinto-me não sendo "posta a prova", mas como uma espécie de rearranjo da mente: primeiro o desarranjado, depois a ordem, como uma "limpa" no armário: você tira tudo, faz uma pilha na cama e depois recoloca apenas aquilo que realmente importa, apenas o vital, o que não for, dar-se outro fim.  Sinto-me assim: numa cama com pilhas e pilhas de roupas e perfumes e hidratantes e sapatos, sem conseguir encontrar um pente, mas ao mesmo tempo sabendo que haverá uma hora em que tudo estará, novamente, no seu devido lug...