Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Malícia

Ela aparece como quem esconde um segredo, estende as mãos. Depois da recepção sai como quem foge de um pecado, como se mordesse a maçã do Ébano.
Agora é sua vez de deixa-lo atordoado.
Ler-se: “Os morangos não acabaram”.
Passos. Perseguição. Silêncio como se ambos flutuassem. Todos ouvem as firmes passadas no chão.
Chega-se a algum lugar. Uma porta bate, ele não foi rápido o suficiente. Agora há de fato a falta dos ecos. Nem mesmo os vultos podem ouvir algo. Nem mesmo se eles estivessem ali. Ninguém mais. Apenas ele e a porta (Sabe-se quantos universos atrás dela). Sua mente desenha mais de 15 dimensões. Mas ele precisa de provas, prefere não idealizar. Ela demora mesmo qualquer suspiro que possa dar pistas. Os universos continuam permeando a mente dele.
Um rangido. Uma presença.
Agora ela estende as mãos. Atônito ele tentaria balbuciar algo se seus lábios se movessem, mesmo sem entender o porquê da repentina paralisia depois de toda perseguição. Ela suspende a mão como uma bandeja, ao nível dos olhos dela, ao nível do lábio superior dele. Olhos fixos nele.
Um morango.
Ele observa melhor:
Uma mordida.
Ela fixa os olhos nele:
Agora é minha vez de te surpreender.
Ele não enxerga mais um palmo a frente.
                                                                                                                                                       21.11.11

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Da janela, ela lembra

About #saudade

Barquinho de papel (azul)