Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Brincadeiras do relógio.

Abre os olhos. Alguns passos à dentro. Bate a porta. Um único barulho. Voltou a sentir o hálito dela, seus lábios. Nem mesmo o morango mordido fazia mais parte de seu campo visual. Nada mais além daquele imenso universo de sensações. A reciprocidade se fez. As luzes foram apagadas. Tudo parecia mais claro agora. Ele entendia. Ela respondia. Eles conversavam.
Acordou como quem levanta por culpa de um sonho bom. Não fazia ideia das horas. Tudo parecia tão recente. Tudo parecia tão eterno. Olhou para o lado procurando um vazio inexistente. Um vazio conhecido, costumeiro, porém, inexistente naquela manhã. Ainda tonto, decide por esfregar os olhos e bocejar até acordar de fato e conceber a realidade da felicidade presente.
Avistou morangos ao nível de seus pés, não se lembrava deles ali. Mas não importava a origem, estavam ali e bastava. Alcançou-os. Trouxe para si. Um cafuné prolongado. Um bocejo. Espreguiçada – Bom dia!- um sorriso. Dois sorrisos, agora. Por terceiro apenas um, como dois, mas apenas um se fez.
Pareciam horas. Pareciam segundos, como uma câmera lenta que acelera tudo. Devagar por desejar cada minuto. Veloz pelo tempo não respeitar esse desejo e correr até não mais poder ser alcançado. Como quem deseja eternizar aquele momento, como quem sente um poder incrível retira, como um tolo, as baterias do relógio. Jamais seria um Deus. Mas não importava, não haveria horas para limitar o que sentia. Voltou a não enxergar mais um palmo a sua frente.
                                                                                                                                                         04/12/11

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