Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Fez-se despertar.


Pode-se dizer que ela sentia-se determinada a ajudá-lo.
Ele destrambelhado; ela com as maçãs suspensas não querendo sorrir.
Ela determinada. Por amizade, afinal se ele gostava de sua amada ela poderia ajudá-lo, por que não?
Ele tenta se aproximar... Expansivo demais, ela o reprime.
- Não a conquistará sendo tão invasivo, seja calmo e intenso.
- Como?
- Seja ousado, surpreenda-a, mas não a afaste. Seja interessante, não dê todas as cartas.
Ele tenta um olhar fatal.
- Você quer ser engraçado ou encantá-la?
- Poxa...
- Roube-me um beijo.
- Como?
Ele não acredita em seus ouvidos.
- Tente um beijo meu.
Ele se convence do que ouviu; ela se convence que ele não conseguirá.
Ele se aproxima, olha fixamente, pensa no pescoço, lembra-se da advertência, decide pelos ombros, chega mais perto, deixa sua respiração tocá-la, torna olhá-la, sua respiração cada vez mais próxima, ele pode sentir o hálito dela, ela pode ouvir os batimentos dele, ela fecha os olhos, um milhão de coisas pela cabeça dele, suas mãos antes nos ombros dela agora sobem para nuca, ele fecha os olhos-ainda pode vê-la- a ansiedade a toma- Ele conseguirá?- Ele treme, ele abre os olhos, ele recua. Ela não sente mais a respiração dele. Ela não sente mais as mãos dele em sua nuca. Ela abre os olhos. Ela o avista. Ela não entende. O Silêncio também não palpita. Ele pega o guardanapo na mesa e começa a mexer, amassá-lo, talvez. Ela se refaz e admite o fracasso de seu aluno. Ele estende as mãos: Uma rosa e um papel escrito. Ela recebe e não enxerga mais nada. Percebe os traços. Olha para o lado: Uma cadeira vazia.
- Para onde ele terá ido?
Ela tenta descobrir. Não ouviu passos, nem a cadeira arrastando. Estava com os olhos fixos no guardanapo “amassado”. Ela encontra os rabiscos: “Desculpe, não posso. Talvez um dia diga que a amo. Talvez um dia entregue uma rosa e fuja para não encarar seus olhos.”.
Não há falas, reclamações ou mesmo uma indagação. Nada se ouve na sacada onde eles se encontravam. Um rubor, um olhar perdido. Sem sussurros.
27/09 - 18/10 – 20/10 – 17/11

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