Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Levante exatamente às três.


Tum... Tum... Tum... na catedral.
Trim...Trim...Trim... no despertador da cabeceira.
Cucô Cucô Cucô    no brechó do outro lado da rua.
São 3 horas.
É hora de acordar.
Hora de despertar e levantar pro dia que vai nascer.

O sol ainda não apareceu, a Lua implacável, alguém ainda dorme depois da porta ao lado.

Não são mais 3h.

Hora de dormir. Já não é perfeito. Já foi feito. Per dido tempo.

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