Setenta

O quarto nunca ficou pronto. Para o futuro ele foi planejado, não para o agora. Todos os dias ele observa os ponteiros do relógio demarcando a hora presente e nada mais. Na impossibilidade de enxergar o futuro, ele não encontra tempo para sua construção. A relatividade, para ele desconhecida, continua traçando regras enquanto, diariamente, a frase é repetida "o tempo não espera por ninguém", enquanto ele espera, afinal "tudo no tempo de Deus". No quintal, na ausência do fruto do seu plano, ele olha para cima e pergunta: "Meu Deus, quando será?" Se o relógio de pulso mostra em números a vida acontecendo e também não marca o futuro, onde estaria esse tempo não conjugado, tão desejado, nas mãos de quem, senão nas suas? Li em Clarice sobre o instante já, seria ele o movimento do ponteiro dos segundos demarcando o passado? O futuro define o presente, li de um futurista uma vez, e tal evento só acontece quando é criada uma estrada que comece nos nossos pés imedi...

Poderia acontecer. Eles podiam se ouvir.


- Boa noite.
- Boa noite.
(poderia ser um beijo)
- Então, conseguiram resolver a falta de instrutores? Naquele dia já havia alunos reclamando.
-Teve uma seleção hoje e conseguimos dois instrutores já com alguma experiência. Vão passar por duas semanas de testes e quando se interarem das normas, poderão saltar com os alunos.
- Ainda bem, você já estava a ponto de um ataque, organizando tudo por lá.
- Verdade. Mas acabou a agonia, ainda bem!
Eles curtiram aquele silêncio, raro silêncio, na noite que começara o inverno, noite de folhas congeladas e do vento frio que entrava pela janela. Foi momentâneo, mas pode-se registrar, no vento, como um desenho, a marca de cada sorriso estampado, um em cada face (poderiam estar em uma única boca).
- Sim, me deixa dizer. Hoje quando voltava da empresa, ainda no sinal fechado, avistei um casal que parecia discutir, ele com um ramalhete e ela não aceitando. Ele parecia pedir desculpas e ela chorava, mas sem ceder aos braços dele. Então ela começou a recuar e virou-se, ele permaneceu parado sem querer ir embora. Ela atravessou a faixa e parou à baixo de uma árvore na calçada. Ventava muito às 8h (quando o relógio da torre tocou), quando uma semente, ou algo parecido, caiu da árvore e como um impulso ela voltou-se a ele e ia atravessar a rua, quando o sinal abriu. Enquanto esperava os dois carros a minha frente avançarem, pude ver quando ele foi embora, deixando-a. Ela que teria atravessado se o sinal atrasasse 5 segundos, mas que ficou imóvel enquanto o sinal estava aberto. E tudo durou o tempo suficiente de um sinal de trânsito.
- Uau. É triste, mas é cômico também. Só ia depender da música de fundo.
- Verdade, mas fiquei pensando na cena até chegar aqui. Se alguém em contasse, eu diria que seria parte de uma narração.
Começaram a rir, os lábios compassados como se tocassem numa orquestra. Os visinhos jamais escutá-la-iam.
Foram horas, horas de conversa, como de costume. O raro silêncio não aparecia, a noite gélida não parecia importar, o vento entrando pela janela fazia-os se enterrarem nos lençóis aconchegantes, mas sem deixarem de conversar por um segundo.

Poderiam estar abraçados.
Poderiam desenhar um beijo.
Poderiam não escapar um aos olhos do outro.
Poderiam, mas o tempo não os deixaria.

Estavam a três horas, um do outro.

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